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São Mateus aos 482 anos: uma cidade entre a história, a riqueza e os desafios do futuro

Da colonização portuguesa ao petróleo, da agricultura às praias do litoral atlântico, o município que cresceu às margens do Cricaré comemora mais um aniversário diante de desafios que vão muito além do abastecimento de água potável

Foto: Gilmar Henriques

São Mateus comemora 482 anos de colonização neste 21 de setembro de 2026 carregando uma história que atravessa quase cinco séculos. A data celebrada pelo município remete à chegada dos primeiros colonizadores portugueses à região do rio Cricaré, por volta de 1544. A condição de município, entretanto, viria somente em 1848, por meio de Ato Provincial de 3 de abril.

Entre uma data e outra, São Mateus deixou de ser uma povoação ligada ao antigo sistema colonial para se transformar em um dos principais centros urbanos do norte do Espírito Santo. Hoje, com população estimada em 135.450 habitantes em 2026, segundo o IBGE, o município ocupa uma área de 2.346,048 km² e apresenta densidade demográfica de 52,75 habitantes por quilômetro quadrado, de acordo com o Censo 2022.

É uma cidade de contrastes: histórica e contemporânea; rural e urbana; produtora de petróleo e agrícola; banhada pelo Atlântico, mas profundamente ligada ao rio Cricaré; dona de patrimônio histórico e, ao mesmo tempo, de uma das áreas turísticas mais conhecidas do Espírito Santo, a Ilha de Guriri.

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O rio nasce da junção dos rios Cotaxé e Cricaré, atravessa municípios de Minas Gerais e do Espírito Santo e chega ao Oceano Atlântico no extremo-norte de Guriri, já em Conceição da Barra -Foto: Gilmar Henriques/Arquivo

Uma cidade moldada pelo Cricaré

A geografia ajuda a explicar boa parte da história de São Mateus.

O município é drenado principalmente pela bacia do rio São Mateus, conhecido como rio Cricaré, responsável por mais de 90% da drenagem de seu território. O rio nasce da junção dos rios Cotaxé e Cricaré, atravessa municípios de Minas Gerais e do Espírito Santo e chega ao Oceano Atlântico no extremo-norte de Guriri, já em Conceição da Barra.

Durante séculos, o Cricaré foi mais do que um elemento da paisagem. Foi caminho, fonte de alimento e eixo econômico. Pelo rio circulavam embarcações que transportavam produtos como farinha, açúcar, madeira e café. Antes da expansão das rodovias, o acesso à região dependia fortemente das vias fluviais.

O município também possui extensa faixa litorânea. São cerca de 43 quilômetros de costa, com praias como Guriri, Barra Nova, Abricó, Campo Grande, Uruçuquara e Barra Seca, entre outras. A porção mateense da Ilha de Guriri é integrada ao complexo formado pelo Oceano Atlântico e pelos rios Cricaré e Mariricu.

Essa combinação de rio, mar, restinga, manguezais e áreas rurais constitui um dos patrimônios ambientais do município – e também impõe a necessidade de conciliar desenvolvimento econômico, ocupação urbana e preservação.

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Durante séculos, o Cricaré foi mais do que um elemento da paisagem. Foi caminho, fonte de alimento e eixo econômico -Foto: Gilmar Henriques

Uma economia que mudou várias vezes

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Pimenta-do-reino: riqueza que projeta São Mateus no mundo -Foto: Gilmar Henriques

A economia de São Mateus passou por diferentes ciclos.

A agricultura, a pecuária e a fruticultura continuam tendo presença importante, ao lado do comércio e dos serviços. O município também ganhou projeção econômica a partir da exploração de petróleo, especialmente a partir da segunda metade do século XX.

Dados históricos do Instituto Jones dos Santos Neves ajudam a compreender essa transformação. Estudo do instituto aponta que a descoberta de petróleo em Barra Nova, em 1967, alterou a dinâmica econômica local, com aumento da circulação de recursos, expansão do comércio e dos serviços e atração de trabalhadores especializados. O mesmo processo foi acompanhado pela implantação de grandes projetos agroindustriais na região.

A agricultura, entretanto, permaneceu como parte importante da identidade econômica mateense. Levantamentos do IJSN mostram, por exemplo, a relevância do município na produção capixaba de coco-anão: em 2023, São Mateus respondeu por 38,6% da produção estadual, segundo o instituto.

O próprio município mantém políticas voltadas à agricultura familiar, diversificação da produção, assistência aos produtores e comercialização de produtos agropecuários.

Também há sinais recentes de expansão do mercado de trabalho formal. Dados do Novo Caged citados pela Prefeitura apontam que São Mateus passou de 17.182 postos formais em 2020 para 24.004 em 2024, crescimento registrado em diferentes setores, incluindo indústria, agropecuária, construção, serviços e comércio.

O desafio, portanto, não é apenas produzir riqueza, mas transformar a atividade econômica em desenvolvimento duradouro, com emprego, renda, infraestrutura e oportunidades distribuídas pelo território.

O patrimônio que o tempo preservou

A história de São Mateus também está inscrita em seu patrimônio cultural.

O município preserva referências arquitetônicas e históricas ligadas ao Sítio Histórico Porto, aos casarões do centro da cidade, ao monumento Igreja Velha e à presença de comunidades quilombolas. São Mateus reforça seu papel como uma das cidades mais antigas do país e reconhece a importância da herança afro-brasileira na formação local.

A trajetória histórica também é marcada pela presença indígena anterior à colonização portuguesa e pelos conflitos decorrentes da ocupação colonial. Documentos históricos utilizados pelo município registram vestígios arqueológicos e a presença de diferentes povos indígenas na região antes da chegada dos portugueses.

Essa dimensão da história merece ser tratada não apenas como memória, mas como parte da identidade contemporânea de São Mateus.

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São Mateus: Padroeiro há quatro séculos -Foto: Isabella Henriques

São Mateus, o homem que empresta o nome à cidade

A escolha do nome São Mateus também tem uma história particular.

Segundo a tradição registrada pelo município, o povoado recebeu esse nome em associação ao dia 21 de setembro, dedicado ao evangelista São Mateus. A Prefeitura relaciona essa tradição à passagem do padre José de Anchieta pela região.

Na tradição cristã, Mateus foi um dos Doze Apóstolos de Jesus e era cobrador de impostos. O Evangelho segundo Mateus relata que Jesus o encontrou sentado na coletoria e o chamou para segui-lo. A CNBB registra que, segundo a tradição cristã, Mateus era anteriormente conhecido como Levi e passou a integrar o grupo dos apóstolos após esse chamado.

A figura de Mateus carrega, portanto, uma característica simbólica marcante: sua trajetória começa em uma atividade socialmente malvista naquele contexto e passa pelo chamado para uma nova missão. O episódio é narrado no próprio Evangelho: Jesus encontra o cobrador de impostos e o convida a segui-lo.

São Mateus é tradicionalmente reconhecido como apóstolo e evangelista, e o Evangelho que leva seu nome integra os chamados Evangelhos Sinóticos, ao lado de Marcos e Lucas.

É esse personagem que dá nome ao município, à paróquia histórica e à Diocese de São Mateus.

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Romaria das Famílias, de Guriri à Catedral: católicos caminham do oceano ao continente -Foto: Isabella Henriques

Uma Diocese que também faz parte da história

A relação entre a cidade e o santo patrono ganhou uma dimensão ainda maior com a criação da Diocese de São Mateus, em 16 de fevereiro de 1958, pelo papa Pio XII, por meio da bula Cum Territorium, tendo como primeiro bispo o missionário comboniano Dom José Dalvit.

Em 2026, a Diocese completou 68 anos, uma boa pare dessa história sob o pastoreio do bispo Dom Aldo Gerna, hoje emérito com 95 anos de idade. Atualmente, está organizada em quatro foranias – Mineira, Capixaba, Praiana e Baiana – abrangendo paróquias de municípios do norte e noroeste capixaba.

Na cidade de São Mateus, a tradição religiosa é ainda mais antiga. A Paróquia São Mateus celebra em 2026 seus 275 anos, lembrando sua instituição em 23 de março de 1751. A antiga Igreja Matriz tornou-se a primeira Catedral da Diocese quando a circunscrição eclesiástica foi criada em 1958.

Assim, o 21 de setembro reúne três dimensões diferentes: a memória da colonização, a identidade do município e a celebração religiosa do santo que lhe empresta o nome.

A água como desafio imediato

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Poço artesiano profundo sendo aberto na praça Mesquita Neto, no coração da Cidade -Foto: Gilmar Henriques

Quase cinco séculos depois do início da colonização, São Mateus enfrenta um problema que toca diretamente a vida cotidiana: a segurança do abastecimento de água potável.

O episódio mais recente está relacionado à chamada cunha salina no rio Cricaré. Em agosto de 2026, o município declarou Situação de Emergência, Nível I, diante da redução do nível do rio e do avanço da água salgada em direção aos pontos de captação. A Prefeitura informou que, entre 23 e 25 de agosto, o nível da bacia havia caído sete metros, chegando à cota de 119 centímetros.

O problema não surgiu de forma repentina. Em outubro de 2025, o município já havia decretado situação de emergência em razão da intrusão salina. Na ocasião, dados citados pela Prefeitura apontaram níveis de cloreto acima do limite de 250 mg/L no ponto de captação, além de redução da vazão do Cricaré.

Em setembro de 2026, após chuvas que contribuíram para reduzir a salinidade, o SAAE informou que mantinha o monitoramento da água e deixava o protocolo de contingência pronto para ser reativado caso as condições voltassem a se deteriorar.

Ao mesmo tempo, o município vem buscando alternativas. Entre elas estão a ampliação da utilização de água subterrânea, com novos poços, e um projeto de aproximadamente R$ 26 milhões para uma nova captação no rio Cricaré, na região de Bamburral, cerca de seis quilômetros rio acima do ponto atualmente utilizado.

A questão, portanto, não se resume à falta de chuva. Envolve disponibilidade hídrica, comportamento das marés, intrusão salina, condições climáticas, infraestrutura de captação e planejamento de longo prazo.

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Duplicação da rodovia de Guriri: desafio ao desenvolvimento -Foto: Gilmar Henriques

Outros desafios para uma cidade que cresceu

A água é hoje um dos problemas mais visíveis, mas não é o único.

O próprio município mantém em revisão seu Plano Municipal de Saneamento Básico, instrumento que deve estabelecer diretrizes para água, esgotamento sanitário, limpeza urbana, manejo de resíduos sólidos e drenagem. A revisão prevê diagnóstico, identificação de pontos de alagamento e erosão e levantamento das condições dos serviços em diferentes áreas do município.

Isso revela uma agenda mais ampla: saneamento, drenagem urbana, ocupação do território, mobilidade, infraestrutura, preservação ambiental e expansão urbana caminham juntos.

São Mateus possui um território extenso, população crescente e uma dinâmica sazonal provocada pelo turismo. A concentração de visitantes em Guriri durante o verão amplia a demanda sobre infraestrutura, serviços, trânsito, limpeza urbana, segurança e abastecimento.

A cidade também precisa continuar transformando sua diversidade econômica em oportunidades. Petróleo, agricultura, comércio, serviços, turismo e indústria fazem parte dessa equação, mas cada atividade traz necessidades próprias de infraestrutura, qualificação profissional, sustentabilidade e planejamento.

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Porto Histórico: berço da colonização de São Mateus, numa mistura de raças e culturas -Foto: Gilmar Henriques/Arquivo

O que São Mateus quer ser daqui para frente?

Essa talvez seja a pergunta mais importante para uma cidade que completa 482 anos.

São Mateus já atravessou ciclos econômicos, mudanças políticas, transformações sociais e diferentes modelos de ocupação do território. O rio que trouxe mercadorias no passado é hoje parte central do debate sobre segurança hídrica. O petróleo que transformou a economia continua fazendo parte da história recente. A agricultura permanece presente. Guriri ampliou a vocação turística. E o patrimônio histórico continua sendo uma referência para a identidade mateense.

O próximo capítulo dependerá da capacidade de transformar essas características em planejamento.

Uma cidade com quase cinco séculos de história não começa do zero. Ela carrega experiências, erros, conquistas, patrimônio, recursos naturais e uma população que construiu sua identidade ao longo de gerações.

Aos 482 anos, São Mateus não precisa escolher entre preservar o passado e preparar o futuro. Precisa fazer as duas coisas.

Porque a cidade que nasceu às margens do Cricaré continuará dependendo dele – não apenas como símbolo de sua história, mas como parte concreta das condições necessárias para que as próximas gerações possam viver, produzir e crescer aqui, neste quinhão abençoado de terra conhecido como Rainha do Cricaré, berço da colonização de todo o norte do Espírito Santo.

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Porto de São Mateus no final da década de 1920 -Foto: Divulgação/Arquivo pessoal

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