Escola Ceciliano Abel de Almeida leva estudantes a imersão em cultura quilombola
Iniciativa reuniu 45 alunos e 15 educadores, incluindo professores, pedagogas e professores coordenadores de área e de cursos técnico
Fotos: Divulgação
Em uma experiência marcante, com intercâmbio de saberes e fortalecimento da educação antirracista, o projeto Aquilombar realizou sua primeira visita técnica ao Quilombo Espírito Santo, localizado a cerca de 10 quilômetros do centro de São Mateus (ES). A iniciativa, que reuniu 45 alunos e 15 educadores, incluindo professores, pedagogas e professores coordenadores de área e de cursos técnico da Escola Estadual de Ensino Médio Ceciliano Abel de Almeida.
“A comitiva escolar foi recebida calorosamente pelas lideranças locais na sede do quilombo, onde ocorreu um emocionante encontro intergeracional”, relato o professor Nilton Ribeiro, coordenador do Curso Técnico em Secretariado.
“Mais que preservar a cultura quilombola é permanecer no lugar”, destacou o anfitrião, Silvio Manoel dos Santos, 83 anos, morador e um dos fundadores da Comunidade Espírito Santo.
“Somente permanecendo no local pode-se preservar a cultura, tudo isso com independência, que seria o carro-mestre de nossa vida”, disse Silvio.

Durante a visita, conforme o relato do professor Nilton, os estudantes tiveram a oportunidade de conhecer diversas facetas da vida quilombola, entre as quais, as seguintes:
1. Culinária e empreendedorismo: produtores locais apresentaram a rica gastronomia da região, com destaque para o tradicional beiju de mandioca, recentemente apresentado até no G20, fórum internacional de cooperação, formado pelas 20 maiores economias do mundo, fundado em 1999 e cujo encontro mais recente foi realizado em novembro de 2024, no Brasil.
2. Tradições musicais: na casa do mestre Luiz dos Santos, os visitantes conheceram o processo de composição do Reis de Boi. “Esta cultura vem de geração em geração”, explicou Luiz, que herdou o conhecimento do tio Valdemar Laudêncio. “Carregar este legado não tem preço”, emocionou-se.
3. Agricultura tradicional: Cedeni de Jesus, moradora da comunidade, destacou os esforços para manter vivas as culturas agrícolas tradicionais como mandioca e batata doce, fundamentais para a sobrevivência histórica do quilombo.
Educação e identidade

Coordenador de Estratégias para Equidade Racial, o professor Marcos Góes Oliveira fez um apelo contundente à comunidade escolar: “Atualmente, 80% dos nossos estudantes são negros (pretos e pardos) e muitos enfrentam desigualdades que se refletem diretamente em seu desempenho pedagógico”. Segundo ele, não basta falar de equidade racial apenas em novembro — é preciso agir todos os dias para transformar a escola em um espaço verdadeiramente antirracista.
Entre as ações que realiza ao longo do ano, Marcos destaca as visitas técnicas e o fortalecimento do letramento racial, considerada uma prática essencial para que estudantes, professores e famílias compreendam e enfrentem o racismo presente nas relações escolares e sociais.
Os estudantes demonstraram grande entusiasmo com a experiência. Mateus, aluno do turno vespertino, afirmou estar buscando “colher o máximo de informações sobre a cultura quilombola” para desenvolver trabalhos escolares e ajudar a manter as tradições.
Já Lavínia, representante dos Jovens Protagonistas e líderes de turma, destacou o objetivo de “aprender mais com a comunidade para multiplicar na escola”.

célebre mestre Valdemar Laudêncio -Foto: Divulgação
Desafios e perspectivas
Domingos, 69 anos, nascido e criado no quilombo, fez uma declaração emocionante: “Permaneço aqui e vou morrer aqui”. Já Derlan Josefa, apontou o desafio de engajar a juventude no associativismo comunitário: “Preparar novos líderes é nossa missão atual”.
A professora coordenadora de Área de Linguagens e Códigos, Jacqueline, compartilhou sua curiosidade em conhecer o processo criativo das canções do Reis de Boi, especialmente porque “a cada ano há novas letras”, adaptadas ao contexto atual.
Legado que permanece
A visita terminou com os participantes encantados pela riqueza cultural encontrada. Além do conhecimento adquirido, muitos levaram para casa produtos da culinária da comunidade, contribuindo para a economia local.
Conforme o professor Nilton Ribeiro, o projeto Aquilombar continua ao longo do ano com outras atividades, reforçando o compromisso da escola com a valorização da cultura afro-brasileira e a promoção da equidade racial na educação. Como bem resumiu um dos jovens participantes: “Hoje entendemos que aquilombar é resistir, é preservar, é honrar nossas raízes”.
Parcerias na execução
O projeto Aquilombar é uma iniciativa da Escola Estadual de Ensino Médio Ceciliano Abel de Almeida, desenvolvido com o apoio institucional da coordenadora pedagógica Fabiana e da diretora Larissa. Conta ainda com a parceria da Comunidade Quilombola Espírito Santo, estabelecida por meio da interlocução da advogada Euci dos Santos Oss, coordenadora do Conselho Comunitário da região.




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