Especialista expõe risco de nova salinização no Cricaré
Se confirmadas as previsões climáticas, super El Niño deve potencializar avanço da cunha salina rio acima com risco de faltar água nas torneiras
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A possibilidade de um super El Niño provocar uma estiagem prolongada no Norte do Espírito Santo tem levado o município de São Mateus a intensificar o planejamento para enfrentar uma eventual crise hídrica. Durante reunião realizada pela Prefeitura com representantes de instituições públicas, setor produtivo e sociedade civil organizada, o diretor operacional do Serviço Autônomo de Água e Esgoto (Saae), Arilson da Luz Mendes, apresentou um panorama técnico sobre o avanço da salinização do Rio Cricaré e as medidas em andamento para garantir o abastecimento da população.
Segundo Arilson, o encontro teve como principal objetivo ampliar o entendimento sobre o fenômeno da cunha salina e preparar a cidade para diferentes cenários climáticos.
“O que estamos fazendo é um chamamento preventivo. Não queremos alarmar a população porque ainda se trata de uma previsão, mas precisamos estar preparados para enfrentar qualquer situação, inclusive a mais severa”, explicou.
Salinização se tornou mais frequente
Considerado um dos maiores conhecedores da Bacia Hidrográfica do Rio São Mateus (Cricaré), Arilson destacou que o problema da salinização não é novo, mas vem se tornando mais frequente e intenso ao longo das últimas décadas.
Conforme recordou, o processo começou a comprometer o abastecimento pelo Rio Mariricu ainda na década de 1990. Desde então, fatores ambientais e climáticos vêm favorecendo o avanço da água do mar para o interior do sistema fluvial.
“A nossa crise hídrica não é propriamente falta de água. O principal problema é a salinização”, resumiu.
Segundo o diretor do Saae, a redução da vazão dos rios, associada à diminuição da cobertura vegetal, à impermeabilização do solo, à expansão urbana e aos períodos prolongados de estiagem, reduz a capacidade natural dos cursos d’água de conter o avanço da maré.
Quando esse conjunto de fatores ocorre simultaneamente, a cunha salina avança rio acima e pode alcançar os pontos de captação utilizados para o abastecimento público.
Arilson lembrou que a situação atingiu níveis críticos em 2015 e 2016, quando a água salgada chegou ao sistema de captação que abastece São Mateus. Desde então, episódios de menor intensidade têm sido registrados praticamente todos os anos em períodos de estiagem mais acentuada.
Novo ponto de captação avança
Entre as soluções estruturantes apontadas pelo especialista está a mudança do ponto de captação de água bruta para uma região mais distante da influência da cunha salina.
Segundo ele, a Prefeitura já contratou uma empresa especializada para elaborar o projeto técnico que definirá a nova área de captação. “O projeto está em fase final de elaboração e deve ser concluído em breve”, informou.
A proposta inclui ainda a implantação de um reservatório capaz de garantir maior segurança operacional ao sistema de abastecimento, permitindo armazenar água e reduzir a vulnerabilidade durante períodos críticos.
Após a conclusão do projeto, a expectativa é buscar recursos para execução das obras e realização dos processos licitatórios necessários.
Poços artesianos reforçam abastecimento
Enquanto as soluções definitivas são estruturadas, o Saae continua investindo em medidas emergenciais para ampliar a oferta de água.
Entre elas está a perfuração de novos poços artesianos profundos. Segundo Arilson, os poços implantados nos últimos anos já desempenham papel fundamental para garantir a continuidade do abastecimento em períodos de maior pressão sobre o sistema.
“A perfuração de poços é uma medida paliativa, mas extremamente importante. Cada novo poço representa uma fonte adicional de água para ajudar a manter o abastecimento da população”, destacou.
Atualmente, o sistema conta com dezenas de poços distribuídos em diferentes regiões do município, complementando a produção de água captada nos mananciais superficiais.
◙ Veja o que disse o diretor do Saae de São Mateus ▼
Comitê de Crise Hídrica é oficializado
Como uma das principais deliberações da reunião, a Prefeitura de São Mateus oficializou a criação do Comitê de Crise Hídrica, que terá a missão de coordenar ações preventivas e monitorar os impactos de uma possível estiagem severa associada ao fenômeno El Niño.
O grupo atuará no acompanhamento permanente dos níveis de captação de água, na ampliação das alternativas de abastecimento, na viabilização de novos poços artesianos e em campanhas de conscientização para o uso racional da água.
A composição do comitê reúne representantes de diversas áreas da administração municipal, incluindo as secretarias de Comunicação, Obras, Defesa Social, Meio Ambiente, Assistência Social, Procuradoria, Saúde e Planejamento, além do Saae.
Também devem integrar a iniciativa a Câmara Municipal, o Corpo de Bombeiros Militar, a Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), a Empresa Luz e Força Santa Maria, representantes do Ministério Público do Estado do Espírito Santo, do Sindicato Rural, empresários do setor de perfuração de poços e lideranças ligadas à infraestrutura.
A proposta é fortalecer a gestão compartilhada e antecipar decisões que permitam minimizar os impactos de uma eventual crise hídrica, garantindo maior segurança para o abastecimento da população mateense.
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