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Conhecimentos, Habilidades, Atitudes e Valores: do Escotismo para a Vida

“Ao mesmo tempo em que a verdade é disseminada, a mentira também, e com um agravo: ela é mais apaixonante!”

Foto: Divulgação

Por
RICARDO COELHO*

Caros Companheiros,

Numa das minhas elucubrações a respeito do Movimento Escoteiro, caí na filosofia do conceito de Competência. Creio que um livro só não daria para nos aprofundarmos sobre este assunto!

A definição que usamos de Competência é de 1973, feita pelo psicólogo norte-americano David Clarence McClelland. Portanto, não é de hoje e nem é uma invenção do Movimento Escoteiro com um trabalho educacional voltado aos Conhecimentos, Habilidades, Atitudes e Valores.

Não quero falar sobre Habilidades, algo que se consegue através de prática e treinamento. Sobre Valores e Atitudes talvez, quem sabe, um dia discorrerei sobre esses importantíssimos assuntos. Mas quero dar aqui uma levíssima pincelada acerca de Conhecimentos. Ouso apostar que estamos vivendo numa crise de Conhecimentos pior que de que Valores e Atitudes nesse mundo moderno, em que todas as respostas estão

fáceis de ser obtidas, principalmente as erradas.

O que é realmente o Conhecimento, fora das suas definições técnicas? Seria simplesmente ter os dados e os fatos em sua mente? É estar atualizado com o que acontece no mundo? É estar por dentro de todos os conceitos?

Confesso que, pessoalmente, tenho dúvidas sobre tudo isso, principalmente quando a gente encontra os seguintes acontecimentos recentes:

1) Se falamos que os estados da matéria são “sólido, líquido e gasoso”, temos de rever nosso discurso.

2) Dizer que os reinos da natureza sejam “animal, vegetal e mineral” também mostra que precisamos renovar tal conhecimento.

3) Plutão já deixou de ser planeta.

4) Ovo e abacate não são mais inimigos da sua saúde!

5) Úlcera não é mais causada por problemas de alimentação.

E, por aí, vai!

O conhecimento sempre foi dinâmico. A Terra ficava no centro do Universo até Copérnico e Galileu mostrarem o quanto o mundo estava errado; Lister mostrou à ciência a importância da assepsia nas cirurgias; Rutherford provou que o átomo era dividido em partes. Todas essas mudanças de conhecimento geraram dúvidas e discussões acaloradas e chocaram cientistas, educadores e pessoas cultas em geral.

Portanto, a ciência caminha, novas descobertas são feitas e temos de nos adaptar ao verdadeiro Conhecimento.

Porém, temos dois problemas para os dias de hoje. O primeiro está na velocidade em que essas novas descobertas são disseminadas. Não durou cem anos entre a descoberta de Plutão e seu rebaixamento para planeta-anão. Não fazem cinquenta anos que se descobriu que Saturno não é mais o único planeta com anéis. Eu mesmo, na década de 1970, brinquei ao falar que no futuro, algumas casas teriam computadores, e me chamaram de maluco! E eu nem estava sendo sério, na época!

Hoje, temos computadores, com uma vasta biblioteca, que espalham o conhecimento pelo mundo. Wikipedia, Inteligência Artificial, Google, Bing, Biblioteca Nacional, “releases” acadêmicas, revistas e jornais virtuais, apresentações em YouTube, Instagram e redes sociais nos dão respostas para muitas dúvidas.

Mas, ao mesmo tempo em que a verdade é disseminada, a mentira também, e com um agravo: ela é mais apaixonante! Não foi empolgante saber que Marte, em determinada época do ano, seria mais brilhante que a Lua? Tal absurdo já foi espalhado tempestivamente umas três vezes! E sobre os chips de monitoramento das pessoas injetados com as vacinas da covid-19? Isso, sem contar com as mentiras deslavadas, porém acreditadas e ardentemente defendidas, que ocorrem durante as campanhas políticas!

A única certeza que podemos dar ao Conhecimento é que ela é associada à Verdade.

Mas a própria Verdade está sendo questionada em nossos casos. Tudo isso tem a ver com o nosso processo educacional. Um Lobinho pode adquirir, sobre alguns assuntos, mais conhecimento que seu Akela. Uma Guia tem mais chance de estar à frente das atualidades do que seu Chefe (aliás, que diabo é essa tal “Guerreiras do K-Pop” que as meninas tanto falam?).

Nossos jovens têm brincado pouco de futebol, bolinha de gude, ferrinho (ainda existe essa brincadeira?), peão, pique de todas as formas, roda, amarelinha, etc. Por outro lado, seus tempos estão investidos nas telas e nas telinhas. E terão tanto acesso aos conhecimentos do que às bobagens, principalmente essas últimas e, pior, àquelas que podem conduzi-los a atividades criminosas ou prejudiciais às suas saúdes mentais, físicas e sociais.

Então, o que sobra para nós como educadores? Como podemos incentivar à obtenção de conhecimento para quem possui mais acesso às informações do que nós?

A resposta não é tão simples. Requer discussões, análises e atualizações que pouco temos tempo para levantar e assimilar. Os conselhos dos anciões pouco servem para a situação atual! Porém, podemos dizer que ainda sobra o que a idade pode oferecer: a Experiência e a Sabedoria.

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Entretanto, Experiência é algo cada vez mais desprezado, o que é uma injustiça. Mas a Sabedoria ainda consegue se firmar, embora seja mais buscada nas crises do que no dia a dia.

E o que vem a ser a Sabedoria, fora dos conceitos técnicos e religiosos?

Isso, só quem tem Sabedoria saberá responder!


*Ricardo Coelho é diretor-presidente da União dos Escoteiros do Brasil – Região Espírito Santo.

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