{"id":7090,"date":"2025-04-13T23:21:01","date_gmt":"2025-04-14T02:21:01","guid":{"rendered":"https:\/\/horadanoticiaonline.com.br\/?p=7090"},"modified":"2025-04-13T23:21:02","modified_gmt":"2025-04-14T02:21:02","slug":"livro-traz-historia-de-roberto-marinho-e-da-globo-durante-a-ditadura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/horadanoticiaonline.com.br\/?p=7090","title":{"rendered":"Livro traz hist\u00f3ria de Roberto Marinho e da Globo durante a ditadura"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:24px\"><em>Biografia escrita por Leonencio Nossa ser\u00e1 lan\u00e7ada no fim do m\u00eas<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right has-small-font-size wp-block-paragraph\">Foto: <strong>Arquivo pessoal<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size wp-block-paragraph\">Por<br><strong>RAFAEL CARDOSO<br><\/strong>Ag\u00eancia Brasil<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em meio \u00e0 censura, repress\u00e3o e viol\u00eancia da ditadura militar, um grupo de comunica\u00e7\u00e3o ganha for\u00e7a e come\u00e7a a se tornar hegem\u00f4nico nacionalmente. Soa contradit\u00f3rio, mas \u00e9 parte da hist\u00f3ria complexa da Rede Globo, que tem como principal nome Roberto Marinho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Empresa e jornalista s\u00e3o protagonistas da biografia \u201cRoberto Marinho: A Globo na Ditadura &#8211; Dos Festivais \u00e0s Bombas no Riocentro\u201d, que vai ser lan\u00e7ada no dia 24 de abril pela editora Nova Fronteira. \u00c9 o segundo volume de uma trilogia escrita pelo jornalista e doutor em Hist\u00f3ria Leonencio Nossa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O autor \u00e9 conhecido por reportagens especiais sobre Amaz\u00f4nia, direitos humanos e pol\u00edtica. Venceu duas vezes o Pr\u00eamio Esso e cinco vezes o Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Enquanto o primeiro volume, lan\u00e7ado em 2019, cobria o per\u00edodo do nascimento de Roberto Marinho, em 1904, at\u00e9 a cria\u00e7\u00e3o do Jornal Nacional, em 1967, o segundo volume continua a partir desse ponto, com destaque para o per\u00edodo da ditadura militar, at\u00e9 o atentado no Riocentro, em 1981.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A reportagem da Ag\u00eancia Brasil entrevistou Leonencio Nossa por telefone sobre os principais temas do novo livro que, segundo o autor, abrange o per\u00edodo mais intenso da vida pessoal e profissional de Roberto Marinho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para al\u00e9m dos recortes espec\u00edficos da m\u00eddia brasileira, Leonencio espera que o livro ajude os leitores com mais uma reflex\u00e3o cr\u00edtica sobre tempos e pensamentos autorit\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><strong>Ag\u00eancia Brasil: Por que voc\u00ea escolheu o Roberto Marinho como objeto de pesquisa?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Leonencio Nossa<\/strong>: A minha principal forma\u00e7\u00e3o \u00e9 em jornalismo e a minha escola \u00e9 Bras\u00edlia. Foi l\u00e1 que eu me formei como profissional. O meu olhar de mundo \u00e9 um olhar de jornalismo pol\u00edtico. \u00c9 o olhar de quem v\u00ea um discurso de uma autoridade e pincela em uma frase ou em uma palavra a mensagem que est\u00e1 por tr\u00e1s. Escrever livros sempre foi uma continuidade do meu trabalho como jornalista. \u00c9 como se fosse uma extens\u00e3o da reportagem, daquilo que eu mais gosto no jornalismo. \u00c9 a forma de ter um olhar mais aprofundado, de fazer um mergulho em certos temas. Eu escrevi sobre o Rio Amazonas, eu escrevi sobre a guerrilha do Araguaia, temas de Brasil. E teve um momento que eu lembrei de um velho projeto, que era escrever uma biografia de Roberto Marinho. Quando eu estudava na Universidade Federal do Esp\u00edrito Santo, tinha acabado de ser lan\u00e7ado o livro Chat\u00f4: o Rei do Brasil, do Fernando Morais. \u00c9 uma biografia que vai marcar a hist\u00f3ria das biografias no Pa\u00eds. Ela termina justamente com o decl\u00ednio do Assis Chateaubriand e a ascens\u00e3o de Roberto Marinho. E na faculdade, eu falava assim: \u201cOlha, algu\u00e9m vai escrever essa biografia, que \u00e9 uma continuidade do novo dono da m\u00eddia. E o tempo foi passando, desenvolvi minha carreira em Bras\u00edlia e essa hist\u00f3ria nunca foi contada em uma biografia. Em 2013, eu decidi me aventurar. Era uma forma tamb\u00e9m de discutir minha profiss\u00e3o, de discutir o Pa\u00eds. Embora ele seja um personagem carioca que raramente sa\u00eda do Rio de Janeiro, a hist\u00f3ria dele e do grupo dele conta um pouco a hist\u00f3ria do Pa\u00eds. E como tinha um grande volume de informa\u00e7\u00f5es, resolvi fazer tr\u00eas livros.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><strong>Ag\u00eancia Brasil: Por que voc\u00ea acha que ningu\u00e9m escreveu essa biografia antes?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Leonencio Nossa: \u00c9 uma pergunta muito complexa de ser respondida. Consigo pensar em algumas quest\u00f5es. Primeiro, que n\u00f3s n\u00e3o temos uma cultura de biografia no Brasil. Muitos dos nossos presidentes n\u00e3o t\u00eam biografia. Se a gente pegar os \u00faltimos presidentes, tem livro do Fernando Morais sobre o Lula, teve uma biografia da Dilma antes dela ser presidente. Michel Temer, Jair Bolsonaro, Itamar Franco, nenhum deles t\u00eam biografia. N\u00e3o temos uma tradi\u00e7\u00e3o biogr\u00e1fica. Outro ponto \u00e9 que a hist\u00f3ria da Globo parece ser uma hist\u00f3ria fadada ao debate pol\u00edtico do presente. As pessoas sempre est\u00e3o discutindo a Globo, seja na cr\u00edtica ou seja na exalta\u00e7\u00e3o. E, de certa forma, \u00e9 como se a hist\u00f3ria do Roberto Marinho fizesse parte apenas do nosso debate do presente. Todos os pontos pol\u00eamicos, por exemplo, da hist\u00f3ria da Globo s\u00e3o contados \u00e0 exaust\u00e3o, desde 67, quando Jo\u00e3o Calmon [ent\u00e3o presidente da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Empresas de R\u00e1dio e Televis\u00e3o], que era um advers\u00e1rio do Roberto Marinho, publicou um livro. \u00c9 uma hist\u00f3ria muito contada, mas n\u00e3o como biografia. Outra quest\u00e3o \u00e9 que os personagens das elites brasileiras n\u00e3o costumam ter a prefer\u00eancia dos bi\u00f3grafos e dos escritores no geral. A pr\u00f3pria academia teve dificuldades de contar a hist\u00f3ria das nossas elites econ\u00f4micas ou pol\u00edticas, ou mesmo das elites da comunica\u00e7\u00e3o, da ind\u00fastria de massa.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><strong>Ag\u00eancia Brasil: Como foi o processo de pesquisa para a biografia e com quais fontes voc\u00ea trabalhou?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Leonencio Nossa: Eu levo em conta tr\u00eas vertentes no meu processo de pesquisa. A primeira \u00e9 o trabalho documental, os acervos escritos. Eu procurei no Arquivo Nacional, bibliotecas e arquivos nos Estados Unidos, arquivos do Rio de Janeiro, como o do Pal\u00e1cio do Catete, da biblioteca do Senado, e arquivos privados. E a\u00ed, eu destacaria o acervo do Roberto Marinho que est\u00e1 dentro do Grupo Globo. Solicitei muitas informa\u00e7\u00f5es e eles t\u00eam uma equipe coordenada pela Silvia Fiuza que faz esse trabalho com uma equipe de historiadores. Outra frente \u00e9 a dos testemunhos orais. Procurei a fam\u00edlia, os tr\u00eas filhos, alguns sobrinhos dele e muita gente que trabalhou e viveu com o Roberto. E tem a minha pr\u00f3pria impress\u00e3o visual de hist\u00f3ria. Vou em ambientes e os descrevo tamb\u00e9m, como as pessoas vivem neles. Acho que o ambiente f\u00edsico conta muito da hist\u00f3ria das pessoas. E a\u00ed, vale tudo, as impress\u00f5es da hist\u00f3ria macro, da hist\u00f3ria do Pa\u00eds. E s\u00e3o muitos documentos. Chegou um momento em que eu n\u00e3o conseguia mais contar tantos documentos que eu pesquisei. E por isso que \u00e0s vezes \u00e9 at\u00e9 dif\u00edcil a gente chegar a uma conclus\u00e3o sobre o personagem que estamos escrevendo. Como bi\u00f3grafo, o maior medo \u00e9 construir um personagem que se afaste do real. E a\u00ed, voc\u00ea est\u00e1 criando um monstro, seja ele bonzinho ou malvado. Voc\u00ea tem que construir um personagem que esteja mais pr\u00f3ximo da realidade. Outra complica\u00e7\u00e3o, nesse sentido, \u00e9 que o Roberto Marinho viveu muitos anos. Existe o Roberto Marinho da juventude, por exemplo, que \u00e9 completamente desconhecido at\u00e9 pelos pr\u00f3prios filhos. Eu trabalhei com camadas de gera\u00e7\u00f5es para escrever sobre ele.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><strong>Ag\u00eancia Brasil: Nesse sentido, como voc\u00ea projetou uma trilogia, \u00e9 poss\u00edvel falar que cada livro apresenta um Roberto Marinho diferente? Seriam, pelo menos, tr\u00eas ao longo da vida?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Leonencio Nossa: Eu diria que n\u00e3o. Roberto Marinho \u00e9 um personagem sem muita contradi\u00e7\u00e3o, que segue uma linha muito pr\u00e9-estabelecida de vida. Mas a sua pergunta me faz pensar, porque ele foi um personagem muito envolvido com o pr\u00f3prio grupo de comunica\u00e7\u00e3o. Sou tentado a avaliar se ele se diferenciou muito nesses per\u00edodos. Porque, primeiro ele era o jornal antigo, que existia no Rio de Janeiro, e que contava a hist\u00f3ria da vida das pessoas. Depois, ele vai ser a r\u00e1dio. Assim como vai ser tamb\u00e9m a TV. Essa televis\u00e3o, que vai ser o marco de um Pa\u00eds, deixou de ser rural para se tornar mais urbano. Com todos os problemas, mazelas e viol\u00eancia. Acho que os produtos que ele criou ajudam a entender o personagem. Por isso, eu fugi um pouco at\u00e9 da forma cl\u00e1ssica de biografia para contar a hist\u00f3ria do jornal e depois a hist\u00f3ria da TV. Porque contar a hist\u00f3ria da Globo \u00e9 contar a hist\u00f3ria do personagem, \u00e9 entender a alma de um personagem. Ainda que seja uma empresa com uma polifonia, com pessoas que militam em v\u00e1rios campos pol\u00edticos. S\u00f3 que nessa variedade de vozes, d\u00e1 para entender melhor o personagem.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><strong>Ag\u00eancia Brasil: Falamos aqui do Assis Chateaubriand, dono dos Di\u00e1rios Associados, e de como o Roberto Marinho o substituiu como o principal empres\u00e1rio de m\u00eddia. Se pensarmos em um ranking dos principais nomes da comunica\u00e7\u00e3o brasileira, em que posi\u00e7\u00e3o estaria o Roberto Marinho?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Leonencio Nossa: At\u00e9 a morte do Chat\u00f4, o Roberto Marinho era o quinto maior nome da comunica\u00e7\u00e3o brasileira. A empresa dele era a quinta. E depois, em uma d\u00e9cada, ela vai se tornar a primeira. E vai ser uma lideran\u00e7a hegem\u00f4nica. O alcance da TV Globo Pa\u00eds afora, n\u00e3o h\u00e1 nada parecido na hist\u00f3ria do jornalismo no nosso Pa\u00eds. E, de l\u00e1 para c\u00e1, n\u00e3o apareceu outro personagem com a for\u00e7a que Roberto Marinho atinge em termos de for\u00e7a pol\u00edtica e for\u00e7a cultural. A Globo vai ser o grande ve\u00edculo a atingir o Pa\u00eds inteiro. O Chat\u00f4 conseguiu fazer a Tupi, teve uma grande revista que foi O Cruzeiro, de alcance nacional. Ele foi realmente um pioneiro. Mas a Globo tornou o Roberto Marinho um sucessor maior na hist\u00f3ria da ind\u00fastria da comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><strong>Ag\u00eancia Brasil: E o que explica ele ter se tornado esse homem t\u00e3o poderoso e influente?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Leonencio Nossa: Primeiro, havia uma base muito forte. O pai, Irineu, conseguiu construir um ve\u00edculo inovador no Rio de Janeiro [O Globo]. Por mais que Irineu seja um personagem considerado menor na historiografia da imprensa, nos cl\u00e1ssicos de jornalismo, ele vai mudar radicalmente o modelo de fazer jornal, por ser voltado para as pessoas do sub\u00farbio. Tinha uma linguagem diferente dos jornais que existiam na cidade do Rio de Janeiro, como a pr\u00f3pria Gazeta de Not\u00edcias em que ele trabalhou. E esse olhar, que n\u00e3o era para uma elite pol\u00edtica nem intelectual, vai marcar a linguagem da R\u00e1dio Globo e depois da TV Globo. At\u00e9 hoje voc\u00ea v\u00ea a Globo como um ve\u00edculo que atinge um p\u00fablico maior. No in\u00edcio dos anos 1960, h\u00e1 a constru\u00e7\u00e3o de um arcabou\u00e7o jur\u00eddico na \u00e1rea de telecomunica\u00e7\u00f5es. E de regulamenta\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m. Isso foi nos governos do Juscelino [Kubitschek] e do Jango [Jo\u00e3o Goulart]. No in\u00edcio da ditadura, esse sistema vai ser implantado, tem a cria\u00e7\u00e3o da Embratel, tem a vinda da tecnologia do sistema de sat\u00e9lite. Diria que houve um golpe de sorte, porque o Chat\u00f4 j\u00e1 tinha feito todo um investimento na tecnologia antiga. Para fazer uma programa\u00e7\u00e3o nacional, voc\u00ea tinha que ter produ\u00e7\u00e3o no Recife, em S\u00e3o Paulo, no Rio. Com a nova tecnologia por sat\u00e9lite, dava para fazer s\u00f3 no Rio de Janeiro e ficava mais barato. E o Roberto Marinho come\u00e7a a investir na nova tecnologia. E quando veio o golpe de 1964, h\u00e1 uma ades\u00e3o do Roberto Marinho ao golpe. E a ditadura que \u00e9 implantada n\u00e3o vai querer uma empresa hegem\u00f4nica nessa \u00e1rea, dominando o mercado. Voc\u00ea tamb\u00e9m tem uma explos\u00e3o do mercado publicit\u00e1rio no Rio e em S\u00e3o Paulo. E a\u00ed vem uma TV Globo que \u00e9 totalmente tocada por publicidade, para o mercado. A partir dos anos 1980, quando chega a press\u00e3o pela reabertura democr\u00e1tica, a Globo j\u00e1 se torna hegem\u00f4nica.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><strong>Ag\u00eancia Brasil: Estamos falando da ditadura militar, e esse \u00e9 um dos pontos de maior cr\u00edtica \u00e0 trajet\u00f3ria do Roberto Marinho e da Globo. Como voc\u00ea v\u00ea essa rela\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Leonencio Nossa: Na \u00e9poca da ditadura, havia muita ambival\u00eancia. Ao mesmo tempo que o Roberto Marinho se coloca como apoiador do regime, ele tem um produto, uma empresa, que precisa atender outro patr\u00e3o, que \u00e9 o mercado. No Brasil, o mercado consumidor surge e tem um boom realmente nos anos 1970. Nesse ponto, entra o conflito com o regime. H\u00e1 censura de novelas, censura de programas jornal\u00edsticos. E a Globo vai viver essa ambival\u00eancia. \u00c9 uma empresa que tem que crescer, mas ao mesmo tempo tem um regime e todas as discuss\u00f5es pol\u00edticas. O que representou a Globo nesse per\u00edodo autorit\u00e1rio? Eu procurei nessa pesquisa mostrar como era viver dentro das reda\u00e7\u00f5es. Como era o trabalho para n\u00f3s, jornalistas. Entender como era a vida desses profissionais que fizeram a Globo e fizeram o jornal, tendo de lidar com um projeto autorit\u00e1rio de pa\u00eds. Nesse sentido, eu conversei com muitos profissionais das antigas e eles falavam que enfrentavam o maior drama para publicar mat\u00e9rias, a ditadura censurava, e eles brigavam para escrever o que era poss\u00edvel. \u00c0s vezes, tem um editorial que abre com o t\u00edtulo \u201crevolu\u00e7\u00e3o vitoriosa\u201d. Mas tem o drama daqueles profissionais que trabalhavam ali. Existiam socialistas e comunistas.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size wp-block-paragraph\"><strong>Ag\u00eancia Brasil: Que tipo de reflex\u00f5es voc\u00ea espera que o livro provoque nos leitores?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Leonencio Nossa: Eu queria que o leitor tivesse conhecimento da hist\u00f3ria de um pa\u00eds, que viveu nos anos 1970 um dos seus per\u00edodos mais dif\u00edceis, que foi o per\u00edodo autorit\u00e1rio. H\u00e1 viol\u00eancia pol\u00edtica, exercida pelo Estado, com mortes e tortura. Muitas gera\u00e7\u00f5es de artistas e jornalistas atuaram para reverter isso, em circunst\u00e2ncias muito limitadas. Eles tentaram resistir ou reverter o jogo dentro das suas possibilidades. E essa batalha, essa resist\u00eancia que se deu, ela foi poss\u00edvel dentro de uma estrutura r\u00edgida, como era a Rede Globo e dentro de um pa\u00eds dominado por pessoas que mataram seus advers\u00e1rios pol\u00edticos. A quest\u00e3o militar \u00e9 uma coisa que n\u00e3o foi bem resolvida dentro da hist\u00f3ria brasileira. E o que vimos recentemente no 8 de janeiro mostra que precisamos ficar sempre muito atentos. Acho que o livro ajuda a entender um pouco o que foi esse Brasil dos anos 1970 e a cria\u00e7\u00e3o da Rede Globo, empresa que vai se tornar hegem\u00f4nica na vida brasileira.<\/p>\n<\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Biografia escrita por Leonencio Nossa ser\u00e1 lan\u00e7ada no fim do m\u00eas Foto: Arquivo pessoal PorRAFAEL CARDOSOAg\u00eancia Brasil Em meio \u00e0 censura, repress\u00e3o e viol\u00eancia da ditadura militar, um grupo de comunica\u00e7\u00e3o ganha for\u00e7a e come\u00e7a a se tornar hegem\u00f4nico nacionalmente. 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